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Renúncia do Papa

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Foi notória a sintonia de comentários de gente de bom senso sobre a renúncia do papa. Embora surpreendidos pelo gesto, todos concordaram que foi um ato de coragem e humildade; e aqui se inclui a lúcida entrevista do arcebispo de Londrina, dom Orlando.

Entendo que a renúncia do papa tenha um significado que transcende muito o ato em si. A humildade que o caracterizou aliada à coragem do mesmo, asfaltam o caminho para mudanças interessantes e necessárias...


Apesar de prevista nos dispositivos legais do Direito Canônico, a renúncia, sempre deve pressupor completa liberdade do papa e anúncio público da mesma. Não era usada à cerca de 600 anos. Portanto é um fato praticamente inédito. No passado (inclusive com o papa anterior), o mundo todo assistiu em tempo real ao desfalecimento e morte do “papa reinante” com plenos poderes. Naquela época muitas vozes se levantaram evocando a viabilidade da renúncia – tema afastado pelo próprio papa. A renúncia torna-se um momento dramático em si pela configuração da investidura do poder papal, mesmo após Vaticano II. Ele é vitalício. Ele é absoluto (embora haja distribuição de tarefas na Cúria romana). Ele é “sacro” (é o “santo padre”). Tudo isso faz com que a possibilidade de termos um pontífice “não reinante” (aposentado, retirado) sempre tenha sido um tabu, embora previsto em lei.

Bento XVI chegou ao posto de Sumo Pontífice com uma carga de responsabilidades e preconceitos. Substituir João Paulo II, o papa midiático e viajante, não era uma tarefa agradável! Eu mesmo, como inúmeros colegas, encarei a eleição como “fato previsível” o que de certa forma depunha contra a transparência que deve envolver o processo da escolha. Mas a cada dia que passava me surpreendia positivamente. Via nesse homem de Deus um intelectual despojado a serviço de uma missão. Não foi um período fácil também! Vários escândalos (de épocas anteriores) explodiram no Vaticano e posições dogmáticas ou pessoais feriram grupos e personalidades pelo mundo afora... Estou convencido de que a resposta do papa não foi melhor nem pior do que se podia esperar de quem estivesse nesse cargo. Existem limitações estruturais e históricas que impedem posturas talvez mais “revolucionárias” e velozes conforme os tempos que vivemos. Quando se trata do Vaticano, todas as mudanças obedecem a critérios que provocam e afrontam a paciência dos que estão habituados ao “imediatismo” nem sempre consequente e producente!

A humildade do gesto de Bento terá implicações a médio e longo prazo. Primeiro a figura do Pontífice em si. Ele ainda será absoluto como monarca, infalível nos moldes do Vaticano I etc., mas ele será mais “humano”, mais “Pedro”. Ele continuará sendo o pêndulo que garantirá a unidade da Igreja, o administrador da Instituição e o principal responsável pela linha de evangelização a seguir, mas se reforçará cada vez mais a colegialidade preconizada no Vaticano II. Assim como os bispos já se aposentam compulsivamente aos 75 anos (e muitos questionam essa idade) o papa poderá eventualmente seguir os mesmos critérios, sem que isso ofenda a teologia que está por trás da figura do Vigário de Cristo na Terra. A humildade de Bento XVI mexeu num enxame de abelhas produtoras de bom mel! Isso é muito bom.

A coragem está na sua velhice. Homens cultos, conscientes de suas limitações psicossomáticas e em paz com suas convicções (conservadoras ou não) estão aptos a estes gestos. Sua única preocupação é com o julgamento divino. Têm um bom domínio da história e sentem-se protagonistas dela com lucidez. O papa Bento teve a coragem de intervir decisivamente nessa história e dela vai fazer parte como elemento importantíssimo neste terceiro milênio. Falta saber se os cardeais no consistório e o futuro papa entenderão esta atitude e a aprofundarão em todas as suas implicações. A Igreja, além do diálogo difícil com o mundo dominado por uma mudança de época, deve abordar num futuro próximo questões difíceis como a ordenação de mulheres e até de homens casados. A centralidade na Eucaristia e na Palavra obriga a uma presença efetiva de cristãos ordenados para que milhares de irmãos (como hoje acontece) não estejam privados da participação nesses mistérios. O celibato que perdeu terreno com o aprofundamento da teologia matrimonial decorrente do Vaticano II, exige uma boa reflexão e quem sabe colocá-lo a nível opcional ou revigorar as Ordens Religiosas e Congregações. Enfim, esta renúncia, é muito mais “presença” do que renúncia!

 

Pe Manuel Joaquim R. dos Santos

Arquidiocese de Londrina


Última atualização ( Sex, 15 de Fevereiro de 2013 16:52 )  

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